Nascidos para mudar
Fonte: Revista Portas Abertas
No maior continente do mundo, com a maior diversidade cultural, os seguidores do cristianismo têm o desafio de viver segundo os padrões de Cristo

Ex-muçulmanos bengaleses arriscam-se para se reunir em culto
“A vela brilha com intensidade, mas a caverna é grande e escura." Com essa frase, Ron Boyd MacMillan ilustra a situação do cristianismo na Ásia. O maior e mais populoso continente é essa caverna grande e escura, e a vela que brilha com intensidade é a diminuta, porém perseverante, minoria cristã. A Ásia abriga 75% da população mundial e apenas 10% dos cristãos.
Lá, como em qualquer outro lugar do mundo, a experiência do novo nascimento em Cristo leva a mudanças radicais, o que inclui o rompimento com padrões enraizados na cultura tradicional. Aqui no ocidente, cuja cultura é permeada por padrões oriundos da Bíblia, esse rompimento em muitos casos não chega a ser traumático.
Para experimentar a boa e perfeita vontade de Deus, nossos irmãos asiáticos precisam pagar um preço bastante elevado. Para eles, abraçar a nova fé significa ir contra a maior parte dos padrões culturais, herdados ha muitas gerações.
A maior parte dos países em que a perseguição aos cristãos é mais intensa encontra-se na Ásia. Uma explicação para isso é que "os asiáticos estão acostumados a religiões universais e acham difícil relacionar-se com uma fé que diz existir um Deus e um caminho: seu Filho e nenhum outro".
Ron Boyd separa a perseguição na Ásia em quatro zonas: budista, hindu, muçulmana e comunista (veja mapa na página 5).
Novo nome, nova vida
Na zona muçulmana, além de todo o Oriente Médio, Golfo Pérsico e Ásia Central, estão Indonésia, Banngladesh, Malásia, Brunei e Maldivas. Não é fácil para um muçulmano romper com a forte cultura familiar islâmica, mas, com a conversão a Cristo, é impossível conciliar a nova fé com as tradições ancestrais. O que costuma acontecer é a comunidade afastar-se do convertido ou, em casos extremos, a ameaçar de morte a vida dele.
As Filipinas são o único país considerado cristão no continente, no entanto, no sul do país encontra-se encravada uma forte comunidade muçulmana, que com frequência persegue os que ousam trocar a fé islâmica pelo evangelho de Cristo.
A tribo tausug foi a primeira a se converter ao islamismo, sendo o grupo dominante de Jolo. Eles se acham superiores às demais tribos muçulmanas, e uma característica peculiar de seus integrantes é a inclinação para a violência. Isa Almasih pertence a essa tribo. Antes de receber esse nome ela era uma adolescente problemática, de temperamento difícil.
Isa conta: "Nossa família acreditava que o nome de uma pessoa estava diretamente relacionado ao seu comportamento. Quando completei 15 anos, meu tio, que se preocupava com o fato de eu vir a ser uma adulta má e cheia de problemas, decidiu mudar meu nome.
Desde então, as pessoas perceberam uma mudança em minha atitude e comportamento. Eu fiquei maraavilhada com isso. Comecei a me perguntar a respeito do meu novo nome. O que havia de tão especial nele que tinha me transformado?
'Você está usando o nome de um profeta: Isa Almasih (Jesus Cristo). Ele não é um profeta qualquer. Jesus é o maior de todos os profetas, porque ele nunca pecou e salvou a humanidade', meu tio me explicou certa vez.
'Então, por que os muçulmanos não creem em Isa Almasih, se ele é o salvador da humanidade?', perguntei a ele. Meu tio não me respondeu, e, logo, o assunto foi abandonado.
O tempo passou, mas não a minha vontade de saber mais sobre Jesus. Depois de conhecer mais sobre a sua história, decidi colocar minha fé em Isa Almasih.
Sempre que visito meus irmãos, conversamos sobre religião. Comecei a citar os ensinamentos sobre Isa. Algumas vezes, concordavam comigo, mas ainda me diziam que tinham que seguir ao profeta Maomé.
'Não se atreva a seguir a Jesus ou vai pagar caro por isso!', me advertiu meu irmão caçula. E não foi a única vez que ele me ameaçou. Ainda oro pedindo que Isa se mostre a mim através de sonhos, porque tenho medo de contar às pessoas sobre ele. Talvez, se eu encontrá-lo em meus sonhos, terei coragem para viver para ele. Sempre tive o desejo no meu coração de me aproximar dele".
Resultado incrível
Na zona hindu estão países como o Nepal e a Índia, que, juntos, possuem mais de 1 bilhão de habitantes, dentre os quais apenas 30 milhões são cristãos. Apesar da disparidade numérica, extremistas hindus sentem-se ameaçados com o trabalho evangelístico dos cristãos. Por causa disso, a Índia, que é a maior democracia do mundo, não consegue garantir a liberdade religiosa da minoria cristã do país.
Na zona budista estão Mianmar, Butão, Sri Lanka, Camboja e Tailândia. Nesses países, é comum que igrejas sejam atacadas quando seus líderes obtêm sucesso na evangelização.
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A situação dos cristãos em Mianmar não é delicada apenas por encontrar-se na chamada zona budista. Desde 1962, o país é governado por uma junta militar que oprime indiscriminadamente o povo birmanês. Em agosto deste ano, a líder de oposição e ganhadora do prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi (foto ao lado) recebeu nova condenação do regime por ser acusada de violar a prisão domiciliar em que estava. Observadores acreditam que a medida foi "um truque" da ditadura para afastar sua principal oponente das eleições do ano que vem. |
Essa tem sido a experiência vivida por João e Lea, missionários em Mianmar. Eles foram enviados para o delta do Irrawady para abrir uma igreja em uma cidade ao longo da foz. Antes de João e Lea chegarem, havia apenas uma igreja na comunidade, mas que ministrava somente aos cristãos da etnia karen, a tribo mais cristianizada de Mianmar. Então, João e Lea decidiram concentrar os esforços em alcançar os budistas da etnia bahma.
O bahmas compõem cerca de 70% da população total do país. Eles são budistas devotos, e acredita-se que representem o povo mais difícil de ser alcançado de Mianmar. Devido ao forte zelo em suas crenças, os bahmas são hostis e algumas vezes violentos com os cristãos.
O casal começou a fazer um culto na própria casa, apenas cantando o tempo todo. Não demorou muito para que um jovem fosse atraído pelo som. Ele quis aprender as músicas, mesmo não sendo cristão. Depois de ter aprendido, começou a cantá-Ias dia e noite, dentro de casa e até nas ruas. Logo, outros jovens se juntaram a ele, pois queriam aprender as canções de adoração.
Os vizinhos de João ocasionalmente jogam pedras em sua casa. Algumas vezes, Lea pede para os filhos pegarem as pedras no telhado. Então, eles oram pelas pessoas que arremessaram as pedras, para que elas se convertam.
Os missionários são acusados de destruir a cultura budista, tradições e crenças da comunidade e por isso alguns querem expulsá-Ios da vila.
Desde que João e Lea começaram o seu ministério em Mianmar, cerca de 100 pessoas se converteram e foram batizadas. Mesmo vivendo entre budistas devotados, o resultado bem-sucedido de seus esforços tem sido incrível. Em abril de 2009, mais 22 pessoas entraram na igreja.
Perseguição e avivamento
Na zona comunista, milhões de cristãos ainda vivem sob a ideologia que mais combateu o cristianismo no século passado. A queda do Muro de Berlim, há 20 anos, não mudou muito a configuração de vários países da Ásia, como a China, a Coreia do Norte, o Laos, o Vietnã e a maior parte dos países da Ásia Central, que antes faziam parte da extinta União Soviética.
A Coreia do Norte é o pior lugar para um cristão viver. Lá o modelo stalinista de governo é completamente intolerante à fé cristã. Entretanto, estima-se que haja 500 mil cristãos no país. Na China, os 6% dos cristãos precisam lutar contra a tentativa reiterada do governo em controlar a Igreja.
No Vietnã, desde 1975, quando o governo comunista assumiu o poder, muitas igrejas foram fechadas e missionários foram expulsos. O cristianismo era considerado uma religião de norte-americanos e as pessoas tinham medo de compartilhar sua fé.
O pastor Samuel* viveu esse tempo e se lembra de como foi difícil. "Então, em 1988 a Igreja experimentou um avivamento. Oramos e jejuamos. O povo de Deus experimentou cura e libertação. Mas uma perseguição intensa se seguiu a tudo isso." Foi nessa época que começou o movimento das igrejas domésticas. As reuniões aconteciam em casas diferentes para tentar escapar da vigilância implacável. Mesmo assim, muitos cristãos eram detidos, tinham suas Bíblias confiscadas e eram pressionados a abandonar sua fé. Muitos pastores e fiéis eram presos e passavam meses e, às vezes, anos na prisão.
Na denominação a que o pastor Samuel pertence, 70% dos pastores já estiveram presos pelo menos uma vez. Samuel conta: "Um deles foi sentenciado a três anos. Nos seis primeiros meses, ele ficou numa solitária, onde adoeceu gravemente, por causa das condições precárias e da falta de comida. Ele não podia mais andar. Então, clamou: 'Deus, quero que o Senhor me leve. Não posso mais suportar a perseguição. Não posso sobreviver assim!'. Mas nada aconteceu. Certa noite, porém, o Senhor apareceu a ele e disse: 'Não tenha medo, filho ... Vou curá-Io'. Três dias depois ele foi milagrosamente transferido da solitária e recebeu tratamento médico".
Depois dessa experiência, ele se tomou um novo homem. "Ele se tornou um José na prisão. Esse irmão cumpriu toda sua sentença, mas também falou do amor de Deus aos seus companheiros de presídio, onde fundou duas igrejas! Depois de três anos, ele voltou para casa, e hoje exerce seu ministério entre o povo hmong, no norte do país."
Atualmente existem 40 igrejas entre os hmongs e são elas que sofrem a maior perseguição no Vietnã. O índice de prisão de pastores é duas vezes maior nessa região do que no sul do país.
O pastor Samuel louva a Deus. Para ele, a perseguição trouxe mais força para a Igreja vietnamita, ao contrário do que se poderia imaginar. Na verdade, as orações feitas em favor deles os habilitou a renovar sua mente e perseverar, a ponto de não medirem esforços nem consequências para atingir o objetivo de experimentar a vontade de Deus. Louve a Deus pela vida desses irmãos dedicados e envolva-se com eles.
Também depende de nós, cristãos da Igreja livre no ocidente, fazer com que a luz intensa que os irmãos asiáticos representam se tome cada vez mais forte a ponto de iluminar aquela grande e escura "caverna" com a resplandecente luz do evangelho.•
1 A fé que persevera, 2009, Missão Portas Abertas.
* O nome verdadeiro foi alterado por motivos de segurança.

Fonte: Matéria retirada na integra da Revista Portas abertas www.portasabertas.org.br
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