Olhos que buscam a paz
Fonte Revista Portas Abertas Janeiro 2010
Marcos Abe, membro do conselho de administração da Missão, visitou a Coreia do Norte em 2007 e compartilha aqui a experiência de andar pelo país mais fechado do mundo
Por trás do gesto agressivo do pequeno nortecoreano que atira pedras contra estrangeiros se esconde o anseio por liberdade
Aquela criança deveria ter não mais que 10 anos de idade. Seus olhos, cheios de raiva, fitavam o trem que passava lentamente pelo arrozal, a caminho de Pyongyang, capital da Careia do Norte. Pedras eram atiiradas pela criança contra o trem, que continuava em movimento. Os adultos, curvados, não se davam conta do que se passava. Estavam cabisbaixos, trabalhando no arrozal.
Eu estava naquele trem. Vi as pedras atiradas e o ódio nos olhos daquela criança. Uma imagem que não me sai da mente.
As horas se passavam lentamente e a fome começou a apertar. Deixei minha cabine e fui a caminho do vagão-restaurante. Descobri que não havia vagão-restaurante! Eu e meu companheiro de jornada, Aguinaldo, presidente do conselho da Missão, não podíamos transitar entre os vagões. Estávamos presos ali, sem comida, sem água e sem liberdade de movimentos.
Assim começou nossa viagem para a Coreia do Norte, o país mais fechado ao evangelho em todo o mundo.
É PROIBIDO CORRER
A sensação de clausura durou a viagem inteira.
Duas "guias turísticas" foram desiglnadas pelo goverrno para nos acompanhar por todo canto. Não tínhamos liberdade para ir e vir, pois, na prática, elas funcionavam como agentes para nos fiscalizar.
Logo nos primeiros dias, perguntei a elas se a Coreia do Norte era um país livre. Elas responderam que sim. Disse, então, que sairia sozinho pela cidade, para fazer minha corrida diária. Uma das guias, vIsivelmente tensa, disse que isso não era aconselhável.
Perguntei se a cidade era perigosa e ela respondeu que não existia violência em Pyongyang. Comentei que em minha cidade, São Paulo, existia muita violência, mas que, mesmo assim,corria pelas ruas para me exercitar. Dei um grande sorriso, agradeci e informei que faria meu exercício diário.
Ela limitou meu trajeto a algumas ruas próximas ao hotel e, quando desci para correr, lá estava ela. Fui corrrendo até uma barreira policial. Lá estava a guia. Sorrindo, ela disse ter sido uma coincidência ter me encontrado.
Dei a volta e retomei para o hotel. Quem estava lá?
Era a guia, já me esperando, sorrindo, dizendo que estava surpresa com tantas coincidências. Por onde eu passava por aquela cidade "livre", lá estava ela. Tentava ser onipresente e parecia de fato conseguir.
UM LÍDER ONIPRESENTE
Todos naquele país são vigiados dia e noite. Relatos indicam que professores estimulam as crianças a denunciar os pais que fazem orações ou lêem a Bíblia em casa.
No metrô, nos jornais, nas ruas, há quadros e fotografias do falecido presidente Kim II-Sung, chamado de "grande pai". Todos os habitantes que vi usam um broche com a fotografia dele. Quando se casam, viajam até a grande estátua de Kim II-Sung, como a pedir bênção e prestar adoração.
Não se passa um quilômetro sem que sejam vistos outdoors, estátuas ou objetos que lembrem Kim II-Sung ou seu filho e atual presidente, Kim Jong-II. Logo pela manhã, os microfones de Pyongyang tocam uma música do falecido líder.
Durante toda a viagem, tentaram estar com os olhos presentes sobre nossos passos e comentários, determinando horários, itinerário, o que podíamos ver, o que deveríamos fotografar e até o que deveríamos dizer.
Em determinado momento, nos levaram para ver a estátua de Kim II-Sung, e as guias queriam que nos curvássemos diante da estátua. Respondemos que éramos cristãos, respeitávamos as tradições, mas não faríamos aquilo. Elas ficaram surpresas e chocadas. Depois de muita insistência, nos desobrigaram de nos prostrar ou ofertar flores ao pai do atual ditador.
RESTARAM OS OLHOS
Mas vimos Deus agindo. Mesmo na Coreia do Norte, o país mais opressivo do mundo, manifesta-se o Pai presente e amoroso, o Filho que se sacrificou na cruz pelos que sofrem e o Espírito Santo, Único e Consolador.
Um dia, fomos a um restaurante almoçar. Obviamente, as guias e o motorista que nos acompanhavam estavam juntos, vigiando. Fomos encaminhados a uma sala isolada para turistas, como normalmente fazem, para evitar nosso contato com a população.
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Recém-casados em frente à estátua de Kim iI-5ung, onde foram pedir a bênção do ditador deus. |
Por alguma razão, esqueceram que estávamos naquela sala e trancaram o restaurante. Ficamos lá presos, eu, Aguinaldo, as guias e o motorista. Sem ter o que fazer, começamos a conversar. Falamos sobre nossas vidas, nossas famílias, nossas alegrias e tristezas. Falamos sobre o perdão e sobre um Deus que nos dá capacidade para perdoar.
Lembrei-me dos olhos daquela criança que apedrejava o trem. Vi os olhos das guias. Olhos comovidos e que deixavam de lado, aos poucos, o medo e a raiva. Elas nos contaram um pouco como viviam. A dificuldade de conseguir alimento, o desrespeito contra a mulher, as lutas e conflitos familiares, a tensão no ambiente de trabalho. De repente, ficamos todos iguais. Com lutas, alegrias e tristezas.
Fui orientado pela Portas Abertas Internacional a não divulgar detalhes da viagem, por motivos de segurança. Mas me sobraram os olhos. Os olhos da criança raivosa que clama por liberdade e deseja salvação. Os olhos das guias, que vivem privações e precisam desesperadamente do evangelho. E os meus olhos, que se enchem de lágrimas ao lembrar que temos um Santo Espírito Consolador, que ama os norte-coreanos com a mesma infinita intensidade que ama você.
Neste momento em que escrevo em minha casa confortável, num país livre, com meu filho ao lado, tendo alimento e teto, compartilho sobre milhões de pessoas que clamam por sua vida e por seus olhos que, voltados a Deus, farão diferença na vida dos nossos irmãos perseguidos por amor a Cristo.
Retirado na integra da Revista Portas Abertas - Janeiro 2010
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