CIÊNCIA E FÉ
Muitas vezes as pessoas me perguntam como eu concilio minha fé cristã com minha profissão científica. É tão fácil para mim que às vezes não me dou conta que isso foi construído ao longo de uma vida de estudos e experiências. Certamente não é fortuito. Nasci em lar evangélico, ouvindo minha mãe cantar hinos e indo à EBD semanalmente. Construí ao longo da minha formação espiritual e acadêmica uma visão bem clara dos limites de confronto e pontos de contato entre a fé e a ciência. Claro que nem sempre deve ter sido tão fácil mas, em nenhum momento foi uma questão de vida ou de morte. Tanto é assim que não lembro de nenhum dilema que tenha tirado o meu sono.
As pessoas a minha volta às vezes tinham posições bem conflitantes mas felizmente tive bons professores (de ciência e fé) que sempre me chamaram a atenção à tolerância e disposição de uma mente aberta e não dogmática. Curiosamente conheci pessoas que endeusavam a Ciência buscando nela resposta para toda sua vida como uma panacéia da felicidade. Por outro lado conheci pessoas que demonificavam a Ciência como uma espécie de Anti-Fé com o propósito de acabar com todo tipo de crença. Conheci pessoas que consideravam o estudo secular algo maligno. Por outro lado, conheci pessoas que julgavam religião coisa para ignorantes. Felizmente, bem cedo vislumbrei o lugar particular da ciência e da fé na minha concepção de mundo. Apesar de ambas se basearem na verdade seus métodos, finalidades e linguagens são totalmente distintos. A maior confusão que se pode criar sobre o assunto é a forma errada de interpretar a Bíblia, tanto por cientistas como por crentes. Isto gera uma oposição desnecessária entre Fé e Ciência. Usar o mesmo critério de medida para o texto bíblico e o conteúdo científico é um desrespeito a ambos.
Poderíamos começar esta coluna distinguindo claramente como entender as Escrituras num contexto correto, sem mistificações, sem exageros e sem preconceitos. Dois grandes cientistas que admiro tinham posições bem distintas sobre a interpretação da Bíblia. Eles foram vitais para a formação e consolidação do Método Científico, a base da ciência moderna. Seus nomes: Galileu Galilei e Isaac Newton. Ambos eram (até onde se sabe) cristãos mas, viam o papel da Palavra de Deus de forma totalmente distinta. Uma curiosidade: Newton nasceu no mesmo ano em que Galileu morreu. Sob vários aspectos Newton deu prosseguimento aos trabalhos galileanos, lançando as bases da moderna Física e influenciando todo o pensamento científico atual.
Vejamos algo que se escreveu sobre Galileu:
“...as diversas formas de conhecer são aproximações do conhecimento intuitivo de Deus, que tudo abarca. Entre o pensamento humano e o pensamento divino não pode haver contradição e, por conseguinte, afirma Galileu, não pode haver contradição entre a Bíblia e a Ciência...Galileu responde que a Bíblia não deve ser interpretada literalmente em questões científicas; a Bíblia procura a salvação das almas; ensina come si vadia al cielo e non come vadia il cielo (como se vai para o céu e não como vai o céu)...”
(extraído de http:// www.cipedya.com/web/FileDownload.aspx?IDFile=161249)
Na visão de Galileu a Natureza e a Escritura, ambas, são obras de Deus. São dois livros escritos em linguagens diferentes, com finalidades diferentes, não se pode lê-los da mesma forma. Quando há erro ou incoerência duas possibilidades podem estar ocorrendo juntas ou separadamente. Primeiro: nossa interpretação da Escritura pode estar comprometida e não enxergamos o real sentido do texto. Segundo: aqueles que estudam a Natureza ainda não têm dados suficientes ou, instrumental teórico para descrever os fenômenos corretamente.
Para compreender a Bíblia em sua essência precisamos estar atentos à época em que o texto foi escrito. Não podemos perder de vista os contextos cultural, ling üístico e histórico. Usualmente a Bíblia usa metáforas, figuras verbais, para comunicar ensinamentos morais e espirituais. Você pode achar informação científica na Bíblia? Sim, mas não é esse o seu objetivo. Galileu pensava bem assim. Posso me considerar um galileano. Já Sir Isaac Newton buscava informação científica literalmente na Bíblia. Dizem que morreu obcecado pela idéia de descobrir a geometria do Inferno. Seu pensamento mecanicista influenciou por um longo tempo o pensamento ocidental. Talvez esteja aí a raiz do conflito moderno das idéias acerca da Bíblia. Muitos cientistas e crentes querem entender a Bíblia ao pé da letra dando mais valor ao símbolo do que ao significado.
Em breve gostaria de conversar sobre o saber intelectual e a fé: Eles são excludentes? Saber demais envaidece? Devemos buscar conhecimento? Com que intensidade?
Aguarde o próximo artigo desta coluna. Fique com Deus e com saúde: ore, mas não deixe de ir ao médico se for preciso :) ...
Algumas sugestões de leitura:
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GALILEI, Galileu. Ciência e fé. Trad. Carlos Arthur R. do Nascimento. Rio de Janeiro: Nova Stella, 1988
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BROLLO, Ana P. "Galileu Galilei: Carta à Senhora Cristina de Lorena, Grã-Duquesa de Toscana." tese de mestrado: história da ciência, PUC/SP, S ão Paulo, 2006
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