Restauração
“Restaura
a nossa sorte, ó Senhor, como as correntes do Negueb”.
Salmo 126.4
No Oriente Médio os wadis são muito comuns. Wadi
é uma palavra árabe que designa os rios temporários, ou seja, aqueles rios
que existem somente no período de chuva. O fenômeno é curioso. Você passa
por um determinado caminho em um período do ano e não encontra nada a
não ser um leito seco.
Passando pelo mesmo caminho durante a
época das chuvas você verá o rio vivo. O texto bíblico citado acima (Sl. 126.4)
menciona o Negueb, que é um deserto localizado no sul de Israel. Quando o
salmista pede que o Senhor restaure a sua “sorte” (ou esperança) como as
correntes do Negueb, ele está desejando que o Senhor lhe traga vida e esperança
da mesma forma que traz vida a um deserto. Quando as águas do Negueb voltam a
correr, uma pequena vegetação local volta a surgir, voltando também pequenas
espécies da fauna local. Enfim, a vida retorna.
Há momentos em que nos sentimos assim, secos e sem vida.
Não esperamos mais. Desistimos dos sonhos, enterrando-os em algum lugar no
nosso interior. Nós oramos, e parece que nada acontece. Até que finalmente
cansamos e desistimos. Houve uma mulher chamada Ana, casada com Elcana, que
passou por esta experiência. Ela queria muito ter um filho. Mas havia um grande
problema. Elcana tinha, na verdade, duas mulheres. Penina, rival de Ana, “tinha
filhos, mas Ana não os tinha” (I Sm. 1:2). Ana sofria, pois desejava
muito ser mãe e “sua rival a provocava excessivamente para a irritar, porque
o Senhor lhe havia cerrado a madre” (v. 6).
Observe que a Bíblia não diz que Ana culpava algum
demônio por seu problema. Ela não “amarrava”, nem “repreendia”. Às vezes nós
repreendemos o inimigo diante de alguma dificuldade que enfrentamos, mas não
percebemos que não é a mão dele que está sobre nós, mas sim a mão do próprio
Deus. “O Senhor lhe havia cerrado a madre” (v. 6).
Podemos imaginar como Ana orava e implorava a Deus por um
filho. Será que nunca teria o seu sonho realizado? O tempo passava, mas Ana se
recusava a enterrar seus sonhos. Certo dia, a dor da sua alma chegou a tal
ponto que “com amargura de alma, orou ao Senhor, chorou muito, e fez um voto
ao Senhor, dizendo: Ó Senhor dos exércitos, se benignamente atentares para a
aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva não te esqueceres,
mas à tua serva deres um filho, ao Senhor o darei por todos os dias da sua
vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha” (vs. 10-11). Sua aflição
era tanta, que Eli, o sacerdote, a teve por embriagada e a censurou. Ana,
porém, explicou ao sacerdote o que se passava, e afirmou que apenas estava
derramando a sua alma perante o Senhor (vs. 13-15). Gosto da expressão
“derramar a alma”. Ela significa se entregar, se render totalmente. É esta
rendição total que Deus espera de
nós. Não é fácil, pagamos um alto preço por isso. Mas quando finalmente
entendemos que esta rendição total
é uma questão de vida ou morte nossa, compreendemos que vale a pena pagar o preço. Sempre vale
a pena, afinal, quem pagou o maior preço foi Jesus.
Diz a Bíblia que Eli a despediu dizendo: “Vai-te em paz,
e o Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste” (v. 17). Ao sair
do tabernáculo, Ana “se foi o seu caminho, e comeu, e o seu semblante já não
era triste” (v.18). Ana não esperou que as circunstâncias exteriores
mudassem para ser feliz. Algo dentro dela havia mudado, independente das circunstâncias
ao seu redor. Aquela dor havia sido depositada no altar do Senhor, e já não
havia peso em seu coração. Nós não podemos esperar que as circunstâncias mudem
para sermos felizes. Em primeiro lugar, algo precisa ser mudado dentro de nós,
é lá que as mudanças começam, no nosso interior. Só então a situação começará a
mudar.
Algum tempo depois de entregar seu sonho a Deus, Ana
concebeu e deu à luz um filho, chamando-o Samuel. Depois que ele foi desmamado,
Ana cumpriu o seu voto e o levou para ser entregue ao Senhor. Samuel passou a
viver com o sacerdote Eli, e mais uma vez Deus mostrou a sua fidelidade. Ana
queria apenas um filho, e Deus lhe deu muito mais. Depois que Ana cumpriu o seu
voto, Deus lhe abençoou com mais cinco filhos (I Sm. 2:21). Samuel, o
primogênito, tornou-se o último juiz-sacerdote de Israel, e foi ele que,
direcionado pelo Senhor, ungiu os dois primeiros reis de Israel.
Deus é capaz de fazer de fazer os sonhos renascerem.
Àqueles que não sabem sonhar, Deus lhes ensina a sonhar. Àqueles que não têm
sonhos, Deus lhes dá o Seu próprio sonho.
Se você, caro leitor, precisa desta restauração, meu
desejo é que o Senhor esteja agora lhe dando um novo fôlego. Que o Senhor
restaure a sua sorte, querido leitor, como Ele restaura as correntes do Negueb.
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